No último final de semana estava só em casa. Sai para almoçar e fui ao shopping. Queria ver gente! Queria escutar as conversas e talvez, ir ao cinema. Depois de olhar os filmes e verificar que não havia algum que me agradasse ver, fui para a praça da alimentação. Almocei! Comprei amendoim e me sentei num banco para apreciar o alvoroço de pessoas encantadas com as possibilidades de consumir. Idosos, adultos, jovens e crianças... A diversão se transformou em "andar no shopping", "comer no shopping", "comprar no shopping". Pessoas passando de um lado e de outro. Um burburinho só. Comecei a prestar atenção aos brinquedos instalados no térreo. Tinha roda gigante e muitas outras coisas. Um pequeno parque de diversões divertia a garotada. No meio das várias crianças, de repente entraram três meninos lindos e alvissareiros. Corriam, pulavam, riam alto e criaram um alvoroço entre os pais das crianças. A reação de todos, pasmem, de quase todos foi um olhar de reprovação para os meninos com o gesto imediato das mulheres de prender suas bolsas junto a seu corpo. O medo e o horror se instalou em suas faces. Os três meninos sem notar os olhares raivosos para si continuaram sua aventura no meio das outras crianças, entre os brinquedos, rindo e gritando. Quase escutei as mentes daqueles adultos preconceituosos e cheios de ranço colonialista dizer: "Que meninos são esses, estranhos, bagunceiros, sem modos! Será que vão me assaltar?" A comoção tomou conta de mim! Que sociedade é essa que não se vê como produtora de preconceitos e injustiça? Que sociedade é essa que não se enxerga como reprodutora da própria violência que tem horror? Aqueles meninos deixaram claro para mim como pensa essa parcela da sociedade que se vê como superior e merecedora de privilégios. Não que eu não soubesse disso! Não que eu já não tivesse tido outros exemplos disso! Mas, ver os rostos contrariados de homens e mulheres que como pais e mães deveriam dar exemplos de humanidade a seus filhos, e ao contrário demonstravam cegueira total diante de crianças que queriam apenas brincar... Será que preciso dizer que esses meninos eram negros? Ou vocês já adivinharam? Seus familiares acompanhavam de longe a correria e as brincadeiras dos meninos. Teriam reparado na reação dos outros adultos? Não percebi nada. Mas, quando uma das mães de uma menina vestida igual a uma princesa, com vestido rodado balonê, que tinha acabado de sair da roda gigante, de forma impetuosa e arriscada esbarrou em um dos meninos, não teve jeito... Sua atitude mostrou a ferocidade de seu pensamento. Sem pedir desculpas, agarrou a filha e apesar dos prantos da garotinha pelo fato de estar sendo afastada dos brinquedos, a mãe levou-a embora. Uma mulher que parecia ser a mãe dos meninos baixou o olhar e a cabeça. Teria ela reparado assim como eu reparei no gesto daquela mulher? Minhas reflexões foram se expandindo e fiquei triste e amuada. O que os adultos fazem com suas crianças! Desde cedo lhes ensinam o preconceito, o medo, a discriminação, a violência... Em tempos como os atuais, não me admira que uma parcela da sociedade queira culpar as crianças por sua incompetência em protegê-las e educá-las. A defesa da maioridade penal feita por adultos que se consideram privilegiados e portanto, detentores de maiores direitos que o restante, em detrimento da maior parcela da população que até 2003 era totalmente esquecida é de uma perversidade total. São vários os tipos de violência a que as crianças são submetidas. Desde violência física até essa última forma de violência que eu relatei. Uma sociedade que não se pensa, não se reflete e não se recria é uma sociedade que está morrendo e se matando e ainda não se deu conta. Não acredito nisso! Apesar desses exemplos de crueldade social, acredito que estamos fazendo fermentar algo que sempre esteve potente em nosso povo, sua dignidade e humanidade. Hoje é dia do trabalhador e da trabalhadora no mundo todo! Aqui no Brasil alguns números forjados na luta pela igualdade econômica nos ajudam a comemorar. Segundo o IBGE, nos últimos 10 anos, o salário mínimo subiu 70% de 2003 a 2013. Era US$ 72,07 e hoje é US$ 338,00. Os empregados com carteira assinada, 39,7% em 2003, passaram a 49,2%. A parcela dos sem carteira diminuiu de 15,5% para 10,6%. O nº de mulheres com carteira assinada subiu de 37,7% para 41,3%, os negros ou pardos aumentaram de 41% para 46,1%. São números estimulantes! As estatísticas econômicas são encorajadoras! Mas, a cultura colonial de exploração, violação de direitos, violência e ódio social continuam fortes. "Que Brasil queremos deixar para nossas crianças?" Já ouvi e vi escrita essa pergunta tantas vezes, em tantos lugares... Ao invés disso, nós deveríamos nos perguntar. "Que adultos queremos deixar para o nosso Brasil?" Depende do nosso repensar, de nossa maturidade em assumir nossas limitações e nosso desejo de dar certo! Um Brasil mais confiante, mais justo, mais forte, mais humano e mais solidário só vai acontecer quando nós adultos tivermos consciência de nossa responsabilidade. As crianças desse país não merecem muitas das decisões que são tomadas pelo Governo, pelo Judiciário e por seus responsáveis legais. Mas, elas são crianças! Como podem se defender? Somos todos nós que temos que defendê-las. Para isso precisamos amadurecer. Maturidade social é que precisamos e o que nossas crianças desejam... Chega de irresponsabilidade! Se queremos melhores adultos no futuro temos que crescer rápido, agora! O discurso da maioridade penal é uma infantilidade social.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
sábado, 23 de março de 2013
COMUNICAÇÃO, CONTROLE SOCIAL E SINDICALISMO 1
Muito se tem falado sobre a mídia. Eu, exponho aqui e em outros sites de relacionamento minhas críticas aos seus interesses corporativos para manter seus privilégios e enriquecimento. Todavia, são poucos que falam sobre a invasão subjetiva nas mentes e corações que o sistema capitalista de comunicações provoca. Há muito venho observando como a desumanização é incentivada por eles, os donos dos sistemas de comunicação, nos jornais, nas revistas, na TV com várias "atrações" feitas para incentivar formas de pensar, formas de agir, o que vestir, o que falar, o que sentir... Enfim, uma formação cultural baseada numa sociedade capitalista de consumo. A sociedade da generalização. A sociedade do espetáculo! A sociedade da ilusão! A sociedade onde o contato com a experiência e a vivência são negligenciadas pelo que se vê na tela da TV e nas variadas mídias. A sociedade do pensamento único! A coisa é tão sutil que muitos companheiros e companheiras que conheço e que sei que são pessoas dignas lutando por um país melhor, muitas vezes tem atitudes que descambam para a acomodação nessa "matrix cultural". Só para exemplificar vejam isso. Recebi há duas semanas de dois trabalhadores associados do nosso sindicato, e-mails de cobrança que representam bem essa cultura capitalista e colonialista disseminada em nosso cotidiano. Em ambos, observo palavras escritas em um tom imperativo, grosseiro, arrogante e imperialista. O que somos nós, diretores do sindicato para muitos trabalhadores e trabalhadoras? Como representantes deles, nos transformamos em objetos de seu uso. Ou nos transformam em santos ou em demônios... Como se humanos não fôssemos, como se problemas não tivéssemos, como se não fizéssemos mais parte da mesma classe que eles. Sim, estamos no sindicato por fazer parte da classe trabalhadora, para junto com eles pensar estratégias e táticas para melhorar a sociedade e as relações de trabalho. Estamos no sindicato para atuar políticamente a favor da classe trabalhadora. É para isso que, através dos acordos coletivos, conquistamos nossa liberação do trabalho nas empresas que somos empregados. A lei nos faculta imunidade para isso. Quantas vezes acordamos cedo e dormimos tarde fazendo assembléias, reuniões, encontros, movimentos, plenárias, audiências, entre outras atividades diárias. Quantas vezes esquecemos de pagar uma conta, deixamos de ir em compromissos familiares, abandonamos atividades de lazer, por conta dessa opção de estar no sindicato e trabalhar politicamente. Quantos sábados e domingos perdemos por conta disso? Quantas vezes a insônia nos visita por causa de algum problema advindo da luta política e sindical que queremos resolver e não conseguimos relaxar sem encontrar a solução? Muitos trabalhadores não vivem o que vivemos e nos julgam como patrões colonialistas e cruéis. Alguns nos chamam de bandidos, outros que nos locupletamos no sindicato, também já ouvi de alguns que somos vagabundos... Enfim, toda sorte de "adjetivos" que se somam às variadas solicitações feitas de forma muitas vezes leviana e agressiva. Ou seja, para eles, antes do respeito, da participação e presença ativa no sindicato, jogam nas costas dos dirigentes suas frustrações, suas responsabilidades e uma desconfiança constante. Desconfiança essa estimulada pela mídia todos os dias. Desconfiança de quem não vivencia a luta e observa de longe, sem conhecer seus meandros e dificuldades. É claro que não podemos esquecer que existem sindicatos e sindicalistas e alguns desses colaboram para que a mídia faça seu trabalho político-ideológico de manter os trabalhadores e trabalhadoras ausentes do sindicato e longe do debate e da reflexão. Sindicatos que se formaram numa cultura corporativista, e que ajudam a estruturar subjetivamente nos trabalhadores de seu ramo econômico esses sentimentos de não pertencimento à sua classe. Assim, vejo que nos cabe uma profunda reflexão sobre esse assunto. Se as trabalhadoras e trabalhadores se distanciam do sindicato como o sindicato também se distancia deles? Como trazê-los para perto de nós para vivenciarmos juntos a luta política? Como desconstruir a hegemonia do consumismo, do individualismo, da generalização e do pensamento único pregados pela mídia em nosso cotidiano? Isso é assunto vasto e polêmico que merece uma discussão mais aprofundada em nossa próxima postagem.
sábado, 9 de março de 2013
O DIA DA MULHER E OS MALES DO MUNDO
Vi várias manifestações e textos no facebook e em blogs sobre o dia da mulher na última semana e confesso que isso me provocou muitas interrogações e questionamentos e me fez ver o quanto ainda estamos presos a uma cultura dos extremos, que é dos outros e não nossa. Não vou aqui levar em conta a data em si e o que se quer lembrar e afirmar. Essa é outra história! As questões de classe, ao longo do tempo vem sendo lembradas e afirmadas continuamente. Minhas reflexões foram para outro canto, assumiram outra direção. Me pergunto: O que falta em nós, mulheres e homens para assumir e aceitar nossa própria identidade? Ainda nos vestimos de muitos estereótipos. Cada um de nós teve uma formação intelectual e cultural, viveu experiências, aprendeu e corporificou atitudes do mundo. Ao invés de buscar nossa própria forma de ser, nossa intuição, nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossa forma de agir, ficamos imitando os outros, nos espelhando nos outros, criticando o jeito dos outros e incorporando gestos e ações que são sempre colocadas como verdades pelos outros. Estou me rebelando contra isso! Esses dias ao solicitar de meu jornalista uma figura feminina para colocar no jornal do nosso sindicato fiz questão de frisar: não quero figura de mulher cheia de florzinha! Ele riu e colocou a foto de uma mulher trabalhadora, de capacete e uniforme. Ele entendeu um pouco do que eu quis dizer, mas, não entendeu tudo. Ser trabalhadora, fazer política, liderar, comandar um sindicato, uma prefeitura, uma escola, ou qualquer entidade, fazer parte de movimentos sociais e de lutas em prol de mudanças no mundo requer uma segurança e um equilíbrio muito grandes. Há algum tempo atrás diria-se que isso não era coisa de mulher... Mas, também não é coisa de homem, nem de homossexual. Isso não tem nada a ver com gênero ou opção sexual. Isso é coisa de ser humano... Não existem coisas de mulheres, coisas de homens, coisas de éteros ou de homossexuais e outros conceitos que campeiam por aí... Como seres humanos temos o direito de viver a nossa vida, escolher o que queremos, fazer o que nos inspira e temos o dever de ser nós mesmos e não um espelho do que os outros acham que devemos ser ou que o sistema nos diz que temos que ser. Isso é muito difícil! Nossos paradigmas sempre atrapalham. Os extremos, os malditos extremos. A razão de nossos problemas em nossas relações. É o que nos faz odiar! É o que nos faz reativos e submissos aos preconceitos e reacionarismo. Isso me incomoda. Quero poder sentir e pensar o que quero, sem que alguém me diga que aquilo é ruim ou bom. Sem hipocrisia e puritanismo. Mas também, sem a necessidade de abandonar valores que me fizeram ser quem eu sou e que funcionam para mim. Chega de sistemas em nossa vida! Eles invadem o direito de ser o que queremos ser. Eles nos colocam num quadrado, nos obliteram os sentidos e as possibilidades. Não sou uma mulherzinha querendo colo, nem flores, nem força... O que não significa que eu não goste de flores, que eu não me alegre com um beijo e um abraço ou com um presente fora de data. Todos queremos viver, amar e ser felizes... Ou não? Quero também o direito de ficar nervosa, de chorar, de ficar irritada ou frustrada com alguma situação sem que me chamem de fraca, deselegante, controladora ou que digam que estou dando "piti". Quero dar ajuda e receber ajuda! Quero ter alguém para me acalmar e acarinhar! Sem joguinhos, subterfúgios ou idéias preconcebidas sobre amor. Quero ser livre para ser eu mesma! Esse o nosso maior presente! A liberdade de ser quem somos! Sendo mulher ou homem, sendo gay ou lésbica, nada disso importa! O que importa é ser você! Seja você! Conheça suas limitações e seus pontos fortes! Aceite-os e trabalhe com eles! Com autenticidade! O amor liberta e quem gosta de você de verdade vai gostar e te aceitar do jeito que você é! A vida é dura, as discriminações existem, os preconceitos também, mas, se não formos nós mesmos estaremos abrindo mão do que existe de mais bonito e honesto em nós, nossa humanidade! É ela que cura todos os males do mundo!
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