domingo, 12 de fevereiro de 2012

A ESCOLA DA VIDA...

Hoje estava com minha alma nostálgica. Lembrei do tempo em que tinha 6 anos de idade, sentada numa pequena mesa lendo clássicos da literatura. Lembro-me de que tinha uma parte do armário de meu quarto cheia de livros e gibis. Minha mãe incentivava minha curiosidade pela leitura, me contava histórias e me dava livros para ler. Foi ela que me ensinou a ler e quando cheguei na escola, já conhecia o mundo das letras. Para ela a educação escolar era muito importante. Saber ler, escrever e contar... Ir fundo na leitura dos clássicos da literatura. Minha mãe se importava com o que eu iria aprender. Me questionava os deveres de casa, se orgulhava das redações que eu fazia ao mesmo tempo que tinha medo do que eu escrevia. Era engraçado ver o brilho que ela tinha no olhar quando eu lia alguns de meus textos e a ansiedade que ficou quando publiquei meu primeiro conto num livro de contos de Barra Mansa, cidade onde nasci. É muito triste vê-la hoje deitada numa cama, apática, sem luz e sem cor... Mas é a vida! Foi assim que comecei a pensar nessa postagem! A vida educa! Quando saí de casa aos 15 anos, e vim morar no Rio de Janeiro minha mãe me disse que a vida ia me bater muito, porque eu era muito rebelde. Fiquei anos pensando no que ela quis me dizer naquele dia! A cada fase de minha história de vida pensava se ela tinha ou não razão... O que seria apanhar da vida? Hoje, quando vejo a minha trajetória consigo perceber do que minha mãe tinha medo. Ela, viveu num mundo onde não teve as oportunidades que tive... Além disso, apesar de muito inteligente e preocupada em me dar uma "boa" educação, ela não teve coragem em assumir muitas das suas verdades e desejos e viveu uma vida com poucas possibilidades. Assim, a minha rebeldia me livrou de muitas coisas e me deu outras... Graças a essa rebeldia, pude ser educada pela vida! Sim, a vida educa, mostra milhares de coisas, nos faz refletir e renova nossas visões de mundo. Não tenho como contar quantas fases já tive. O que pensava e o que penso! O que sonhava e o que sonho! O contato com pessoas e grupos diversos me fez compreender coisas que nenhum livro poderia me dar. Hoje, quando olho os meninos e meninas que tem o sonho de ser bailarinos no Projeto Raízes da Vila que tento promover, me emociono com mais uma oportunidade que a vida me deu de aprender a superar a realidade através do sonho, do sonho deles junto com o meu! Quando vejo disposição nos olhos de operárias e operários para lutar pelos seus direitos, comovo-me e retiro de dentro de mim a energia necessária para lutar com eles. Será que isso eu conseguiria aprender nos livros? Existiria algum manual para lidar com a vida, a não ser a própria vida a mostrar os caminhos? Quantas escolas temos que nos ensinem a compartilhar, a nos emocionar, a nos unir, a sermos amigos? Existe escola para ensinar homens e mulheres a se relacionarem? Existem escolas que ensinam fraternidade? Paulo Freire foi um dos educadores que entendeu que educação e vida se entrelaçam! Uma das suas frases célebres: Ninguém educa ninguém! Os homens aprendem em comunhão! Temos que aprender a ler a vida! Esses dias, tive um exemplo disso. Estava numa assembléia de trabalhadores para falar sobre os problemas relacionados a questão da Convenção Coletiva de Trabalho deles. Ao subir no carro de som, tive alguma dificuldade porque estava tomando um remédio muito forte para uma crise de alergia, que estava me deixando tonta e com dores, mas, não deixei que isso me impedisse de subir no carro e falar com eles. Foi a melhor assembléia que fiz. Alguns deles se emocionaram e chegaram a dizer que estavam felizes porque a presidenta tinha se emocionado ao falar com eles. Na verdade a dor que estava sentindo deixou minha voz mais embargada e deu um tom de emoção que não havia passado nas outras assembléias que tinha feito. O que aprendi com isso? As pessoas reconhecem o respeito, a consideração e o amor com que fazemos as coisas. Somos mais próximos quando somos capazes de sentir o que os outros sentem. Num mundo onde muitos são tratados como coisas, ter humanidade, ser leal e sincera faz diferença! Tomara que eu possa fazer mais diferença e tomara consiga aprender cada vez mais na escola da vida... Nessa escola sempre passamos de ano se aprendermos a ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.

domingo, 29 de janeiro de 2012

PINHEIRINHOS NOSSOS DE CADA DIA

Ando muito triste e incomodada ultimamente! Cada vez que vejo injustiças acontecendo e pessoas do Judiciário afirmando a necessidade de cumprir-se a lei, fico pensando no que essas pessoas pensam e afirmam ser JUSTIÇA... No dia do massacre do Pinheirinho postei inúmeras notícias no Facebook denunciando o que estava sendo feito. Fotos, vídeos, informações a todo momento fizeram parte do meu dia tentando mostrar a INJUSTIÇA, a ARBITRARIEDADE, a INDIGNIDADE, a MALVADEZA, a SAFADEZA, enfim... muitas outras palavras poderiam dar significado para aquilo que aconteceu. E o por que aconteceu? Isso é que é o mais triste... Alguns colegas do Facebook e até parentes meus vieram me questionar as postagens. Disseram que eu estava pregando a ilegalidade... ILEGALIDADE??? Para que serve a lei? Para servir aos interesses de quem? O que é ilegal de fato? Todos sabemos o quanto o Judiciário está distante do cotidiano das pessoas. É legal ser pobre e sofrer as contigências de um sistema que favorece os ricos? É legal ser negro e sofrer as discriminações de um sistema preconceituoso? Acordem Juristas!!! A Constituição Brasileira no seu artigo 5º diz que: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade..." Não vou reproduzir aqui o todo o conteúdo da Constituição nesse Capítulo "Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos" mas, ali estão expostas garantias fundamentais que todos nós temos, repito, todos nós temos e não apenas alguns. Para citar apenas algumas, aqui vai: "III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;" O que aconteceu no Pinheirinho? Não foi tratamento degradante??? Não foi tratamento desumano??? Foi o que então??? Mas, para resolver os problemas que alguns Juristas possam estar tendo em suas consciências, resolvi também descrever os seguintes itens: "XXII - é garantido o direito de propriedade; XXIII - a propriedade atenderá a sua função social;" Se por um lado temos a pecha liberal do direito à propriedade, temos também o argumento firme de que essa propriedade deve cumprir uma função social. E aí Juristas??? Como é que fica??? Não precisam responder!!! Sei que alguns de vocês vão encontrar argumentos de todas as formas para justificar o legalismo! Mas não há legalismo que justifique a DOR, o SOFRIMENTO, o ASSASSINATO, a TORTURA que foram impostos àqueles cidadãos e a tantos outros que sofrem com a negligência e incúria de Governos e Judiciários voltados aos interesses de uma classe burguesa imbecilizada que só consegue ver e defender seu próprio umbigo. Culpo e sou sim monocrática na minha defesa desses cidadãos e cidadãs! Alô!!! É verdade Juristas e Governistas do PSDB!!! Eles são cidadãos!!! Não são coisas!!! Não são lixo!!! Mas, foi como lixo e coisas que vocês os trataram! É como lixo e coisas que são tratados homens e mulheres todos os dias por Governos e Judiciários que pensam como vocês!!! Façam uma coisa, por favor, para justificar melhor ainda seu legalismo, queimem a Constituição Brasileira, como vocês queimaram e destruiram as casas desses cidadãos e cidadãs. Continuem agindo com seu legalismo... E nós, continuaremos denunciando e agindo com nossa humanidade, respeito e apoio a leis que de fato contribuam para a igualdade e justiça social! Não vamos nos entregar jamais! Vamos denunciar, denunciar e denunciar! Vou continuar denunciando sim! Vocês que se danem! Não me venham com seu legalismo que eu irei com minha justiça!!!

sábado, 21 de janeiro de 2012

A DOR DA IMPOTÊNCIA

Hoje queria falar sobre uma dor muito doída que faz arder meu coração não é de hoje. A dor da Impotência! A dor de ter Humanidade! Aqui na internet, pelas redes sociais, tenho tido a oportunidade de encontrar algumas pessoas que conviveram comigo há muito tempo atrás. Elas me procuram pela rede e querem conversar comigo, lembrar os velhos tempos, dizer o quanto representei na vida delas. É incrível saber disso... É alentador... Ajuda a ver que, de alguma forma pudemos ser referência na vida de alguém! Realmente, durante uns 18 anos, mais especificamente de 1984 até 2002, muitas pessoas conviveram comigo, viveram comigo no mesmo ambiente. Explico, durante esse tempo várias famílias moraram na minha casa. Servíamos como uma expécie de lar substituto, um albergue para pessoas que estavam com problemas para se manter. Como nossa casa era grande, tinha dois andares, podíamos fazer isso. Por lá passaram vários tipos de pessoas, com suas dificuldades e sofrimentos. O bom dessa experiência, foi ter convivido com todo tipo de dor e problema, podendo conhecer o drama de tantas pessoas a partir de seus paradigmas de vida e aprender com isso. O ruim era a dor e tristeza da perda! Lembro-me de muitas vezes ter me sensibilizado e vertido lágrimas de preocupação quando qualquer uma dessas pessoas iam embora, saindo de perto de nossa proteção. Grande pretensão a nossa! Era o que acreditávamos, que podíamos ajudar as pessoas a ter outra vida... Mas aí vieram as limitações, as decepções, os obstáculos. Me lembro de um dos meninos da comunidade, o Gustavo, um menino vivo, alegre e muito levado. Gustavo foi um dos que me causou uma das maiores dores que já senti. Era negro, filho de mãe solteira, que todos na comunidade diziam que era prostituta, porque tinha tido filhos com dois homens diferentes e não era casada com nenhum. Ele era o mais velho e pelo que na época observava, ela não tinha simpatia por ele, parecia que o culpava por sua condição humilhante de mãe solteira, apontada por todos. Pobre mulher! E pobre Gustavo! Eu me apaixonei por aquele menino, tão perdido e confuso diante do ambiente que vivia de exploração, pobreza e violência. Quantas e quantas vezes Gustavo fugia de casa e vinha se esconder em nosso quintal. E quantas vezes acarinhei sua cabeça dando conselhos que hoje sei ele não conseguia compreender. Foram alguns anos de convivência, até que Gustavo se envolveu com o tráfico de drogas. A melhor forma de ter dinheiro, poder e força... Um belo dia, estava eu voltando do trabalho e recebi a notícia. Gustavo tinha sido assassinado. Queima de arquivo! Chorei muito pela dor de sua perda! Lembro dele todas as vezes que escuto ou vejo pessoas criminalizando e violentando os pobres! Lembro dele quando alguém morre assassinado pela polícia ou pelos traficantes! Lembro dele quando pessoas morrem nas filas dos hospitais privados ou públicos. Lembro dele quando pessoas são discriminadas por sua cor de pele ou por sua opção sexual. Lembro dele e de todos que passaram pela minha vida pisoteados pela imposição de uma cultura civilizatória de mercantilização, que permite indignidades e crueldades em nome do capital. Hoje minhas lágrimas já não rolam tanto! Aprendi a conviver com essas desditas e faço de minha revolta um motor de combustão para minhas lutas. Tenho consciência de que não posso fazer mais do que já faço e não me culpo mais pela impotência do que não posso fazer. Faço das minhas palavras, da minha escrita e da minha ação militante um grito de denúncia e de indignação. A dor de minha impotência ainda arde, dói, entristece, mas, me faz mais forte a cada dia, me enche de sabedoria e ternura, me torna mais Humana do que já fui. Humanidade para um mundo mercantil é um gesto de rebeldia! Sou rebelde! Sou sim! E vou continuar sendo! Humanamente rebelde! Para você Gustavo e todas as crianças e jovens que vi morrer eu digo. PRESENTE! PRESENTES EM MINHA ALMA!